segunda-feira, 19 de junho de 2017

Un brazuka en Argentina: Diário tres




Os argentinos têm trauma com dinheiro. É patológico, daria uma tese. E o início desse trauma vem de 2001, quando um dólar e um peso se separaram em valor. Para saber mesmo, o que foi isso, você precisa ver Vientos de Água. Uma co-produção Espanha-Argentina, que retrata dois tempos em paralelo: os fugitivos da guerra civil espanhola, vindos para a Argentina, e os fugitivos do curralito que foi 2001, com a quebra do país, que já dura uns 17 anos.

Enquanto o seriado marca bem o que foi a quebra de um país em 2001, ele precisava de um prólogo, para registrar as feridas que ficaram no país. Aqui tudo, praticamente tudo, é negociado no dinheiro. As pessoas temem os bancos, e os comerciantes mais, temem ter o dinheiro a receber dos cartões levado pelos bancos quando eles saírem do país, como se isso fosse acontecer amanhã ou depois.

Os argentinos também ainda amam os dólares, como quem nunca esquece uma ex-namorada. Mas aqui a coisa chega a ser meio sexual. Em parte, as casas e grandes aquisições do passado, feitas em "um peso um dólar", ainda são negociadas em dólares, ninguém quer perder o valor que pagou, mas ninguém consegue vender nada, com o dólar a 16 pesos cada, nunca foi tão distante a paridade do peso ao dólar, e nunca se ganhou tão pouco por aqui.

Agora, em outra parte, o Argentino do interior não aceita trocar qualquer nota de dólar. Ela não pode ter escritos, micro-rasgos nas bordas, manchas, carimbos (mesmo que bancários), nem estarem amassadas, nem serem de baixo valores. Apenas notas perfeitas como tiradas das gráficas. A regra se estende por alguma razão aos reais. Em contra partida, por vezes é difícil diferenciar uma nota do peso de um papel de pão, de tão amassada, escrita, rasgada, rasurada, molhada e secada, que esta.

Ou seja, não apenas ninguém aceita cartão, mesmo que seja débito, se te colocar uma taxa absurda (taxa da operadora do cartão, mais o risco de que os bancos partam a qualquer minuto do país, de novo), como também não aceitam qualquer tipo de nota. Se acentuarmos a equação com uma inflação galopante,  não é difícil você sair de casa com uns 1000 pesos, e voltar com duas bolsinhas de produtos e sem dinheiro algum... Ou ainda, passar aperto tendo dinheiro, pois a única nota que você tem, de dólar, está com um carimbo parcial do banco, que quase pode-se ler "contado mecanicamente", ou seja, alguém passou uma fita num bolo de notas, e parte do carimbo pegou, resvalou, sobre a primeira das notas, que veio justamente, parar na minha mão.

Não são tempos fáceis para o Argentino... ou um brazuka en Argentina.

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